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A História do Bar Luiz
A intervenção salvadora de Ary Barroso

Corria o ano de 1942 no Rio de Janeiro. A cidade era então Distrito Federal e o chefe de estado em exercício, Getúlio Vargas. Eram os tempos em que filmes rodados na Atlântida conquistavam o Brasil, e faziam da Cinelândia, palco privilegiado de estréias e lançamentos. O rádio era então o principal veículo de comunicação nacional, e partiam da capital as principais emissões que embalavam e contagiavam os mais distantes recôncavos brasileiros.

Ser sede do governo getulista implicava em que a cidade tivesse voltado para si os principais olhos da administração pública e sediasse a confluência das principais forças políticas em embate no Brasil.

Getúlio Dornelles Vargas governava o país há 12 anos consecutivo e ainda ocuparia o poder até 1945, afastando-se da vida política para retornar apenas em 1950 quando uma bala interromperia sua carreira. Mas esta seria outra história...

Em 1937, cinco anos antes da presente data, Vargas fechou o Congresso Nacional, e promulgou uma constituição que tornou oficial a ditadura no Brasil. A justificativa imediata para a promulgação da "Polaca" - nome pelo qual era conhecida a constituição de 37 - foi a ameaça comunista que pairava sobre a paisagem brasileira. A uma verdadeira tentativa de insurreição - fadada ao fracasso desde seus momentos iniciais - seguiu-se um tal Plano Cohen, forjado para acentuar a ameaça comunista e justificar a manobra política.

Assim, o Estado Novo recém lançado expurgava de uma só vez todas as possibilidades de dissidência política, fossem dos extremistas à esquerda ou à direita. Sim, porque havia no Brasil aqueles que incorporaram os ideais fascistas em expansão na Europa. Reunidos sob a bandeira da Ação Integralista Brasileira, defendiam o expurgo do comunismo e praticavam ações de violência, principalmente no Rio e em São Paulo.

Quando em 1939 eclode a Segunda Guerra Mundial, que envolveria os estados europeus numa luta contra o nazi-fascismo de Hitler e Mussolini, O Estado Brasileiro esquivou-se de assumir uma posição a favor de quaisquer dos dois lados da guerra, composto por uma lado pelo Eixo (Alemanha, Itália e Japão), e por outro pelos Aliados (França, Inglaterra, Estados Unidos e a então União Soviética). A posição de neutralidade refletia as incongruências internas do governo varguista. No alto escalão do governo encontravam-se tanto políticos simpáticos ao governo alemão, como personagens alinhados com a referência liberal representada pelos governos inglês e americano. Os Estados Unidos da América não ostentavam ainda uma grande influência nos seus vizinhos latinos, posição que almejava alcançar, suplantando a preponderância inglesa em aspectos como economia, política e cultura.

Esses tempos chegariam num futuro não muito distante de 1942, mas neste momento, o aliciamento estava apenas se estabelecendo em bases que propiciaram ao Brasil fundar a sua primeira siderúrgica nacional, a CSN, graças a um empréstimo do governo americano.

Consta que Vargas postergou o quanto pode uma decisão de alinhar-se contra o Eixo fascista europeu, e que sua decisão veio em função de uma grande comoção que varreu o território nacional. O mês de agosto chegava ao fim quando seis navios da Marinha Mercante Brasileira foram torpedeados em águas nacionais, por supostos submarinos alemães espionando nossa costa, acarretando na morte de dezenas de brasileiros, civis e militares, que se encontravam a bordo.

No dia seguinte ao torpedeamento, os jornais estampavam as imagens dos corpos chegando as praias, e o trabalho de resgate em alto mar. Crianças e mulheres se encontravam entre as vítimas. A sociedade, atingida em seu orgulho, comovida com o sofrimento dos familiares das vítimas de uma guerra que não era nossa, se mobilizou e, tomada de revolta e fúria foi às ruas exigir um posicionamento brasileiro frente ao acontecido: a guerra havia chegado ao Brasil e algo precisava ser feito.

Sempre na vanguarda dos movimentos sociais, estudantes do Colégio Pedro II, comovidos e consternados com o ocorrido, mobilizaram-se no sentido de exigir uma posição do governo brasileiro perante os países do Eixo e, principalmente, contra a Alemanha nazista. Na unidade do Colégio que fica no Centro da cidade, os jovens sequer começaram a assistir suas aulas naquela manhã. Reuniram-se na porta da instituição rapazes de todas as idades e séries, e mesmo jovens evadidos da unidade de São Cristóvão e, munidos de bandeiras e faixas, tomaram as ruas do centro da cidade, protestando. Quem participou diz que mesmo populares e cidadãos comuns tomaram parte no protesto da juventude carioca, tal a indignação com as mortes.

Gritando frases de ordem, alguns estudantes mais exaltados já haviam retirado a casaca do uniforme, deitando fora a tradicional gravata preta, exigência da compostura de então. Primeiro botão desabotoado, cabelos desgrenhados e palavras de repúdio a Alemanha, estes jovens saíram pela avenida Marechal Floriano sem saber bem ao certo que direção tomar. Não se sabe muito bem como, mas conta-se que provavelmente enquanto alguém se referia a Adolf Hitler, repudiando a Alemanha e seus cidadãos, inclusive aqueles residentes no Brasil, lembraram-se da existência de um peculiar bar da cidade, o Bar Adolph, renomada casa conhecida pela sua culinária alemã e situada na rua da Carioca e que, segundo deduziram, teria esse nome em homenagem ao ditador alemão.

Atravessaram a avenida Presidente Vargas entrando pela Passos, onde se armaram de pedras e pedaços de entulho recolhidos nos escombros de um edifício. Desceram a rua determinados a vingar a honra brasileira através da depredação do estabelecimento. Não se sabe se pelo Largo de São Francisco, passando a rua Luís de Camões ou pela Praça Tiradentes, os estudantes se encaminharam determinados para o Bar Adolph. Conta-se que eram, pelo menos uns 200 indivíduos.

Ao chegarem no Bar foram surpreendidos pela reação de um homem de meia idade, portador de uma peculiar fisionomia, franzino, usando bigode e óculos, empunhado de um caldereta com chope escuro, que os interpelava sobre suas intenções. Os estudantes não reconheceram de imediato a figura, que de cima de uma cadeira se dirigia a eles. O homem se apresentou: tratava-se de Ary Barroso.

Por mais que não lhe identificassem a figura, conheciam-no a popularidade. Desde de 1937 Ary apresentava o popular programa "Calouros em desfile", que inicialmente foi ao ar pela Rádio Cruzeiro do Sul, de onde transferiu-se para a Rádio Tupi. Era também locutor esportivo e torcedor inveterado do Clube de Regatas do Flamengo. No ano anterior, impedido de transmitir um jogo do estádio de São Januário em decorrência de uma discussão com a direção do Vasco da Gama, havia, este intrépido locutor, narrado o jogo do telhado de uma escola vizinha ao estádio.

Era dele também a invenção da gaitinha que anunciava os gols durante as partidas de futebol, e foi com ele que introduziu-se a figura do comentarista esportivo e do jornalista de campo, acompanhando do gramado tudo o que se passava durante a partida.

Três anos antes, enquanto Carmem Miranda partia para encantar os americanos, Francisco Alves, o "Rei da voz" eternizara para os brasileiros aquele que se tornaria o Hino Nacional popular do Brasil, "Aquarela Brasileira", de autoria de Ary Barroso com arranjo de Radamés Gnattali.

Boêmio inveterado, Ary também era conhecido pela sua personalidade ácida, e pela sua defesa efusiva da música e cultura nacionais. Possuidor de uma capacidade oratória única, desde a juventude era conclamado a defender as mais diversas causas, talvez por isso sua escolha pelo bacharelado em Direito, profissão não exercida em uma carreira dedicada a composição e ao piano.

Ao deparar-se com a invasão repentina dos estudantes em uma casa que freqüentava desde sua chegada à cidade, oriundo de Ubá, em Minas Gerais, e para onde se retirava após suas apresentação ao piano no vizinho Cinema Íris, primeiro emprego conquistado no Rio de Janeiro, rapidamente tomou a defesa do Bar Adolph.

Como tudo se passou, leiam em seguida o texto da esquete, encenada por ocasião dos 117 anos do Bar Luiz.

 

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